Sustentabilidade e Esperança
Por mais egoísta que se possa admitir que
seja o homem, é evidente que existem certos princípios em sua natureza que o
levam a interessar-se pela sorte dos outros e fazem com que a
felicidade destes lhe seja necessária, embora disso ele nada obtenha que
não
o prazer de a testemunhar. Adam Smith
Na obra Nascimento da
biopolítica, Foucault apontou que a chave do jogo estaria centrada na vida do
indivíduo e com isso a dominação política do corpo iria contribuir com um
homem necessário ao bom funcionamento da economia capitalista.
Na
economia neoliberal, o sistema político aparece como uma via para libertar o
indivíduo da fobia de controle do Estado, contudo o que interessa ao Estado é
a vida do indivíduo, mas este se encontra entrelaçado na multiplicidade de
empresas e organizações que têm como interesses comuns mantê-lo empreendedor
de si, economicamente ativo e controlado por indicadores mensuráveis que
visam manter o bom funcionamento da economia capitalista.
A
governamentalidade é a maneira de conduzir as condutas dos indivíduos. Essa
prática faz parte do jogo capitalista, pois é necessário que os indivíduos
sejam homens econômicos, porque governar segundo o princípio da razão de
Estado é fazer com que o Estado possa se tornar sólido, permanente e forte
diante de tudo que possa destruí-lo.
Na década de 70, o "direito social"
serviu como mote para ONGs, movimentos ambientalistas, manifestações de
trabalhadores, e a chamada "sociedade civil" passa a ser a chave da economia
e da política, pois defenderia os interesses comuns de comunidades internas
sob a égide de que todos trabalham para o melhor de si e todos querem
melhorar. Daí a sociedade civil só poderia ser compreendida a partir do
comunitário, porque ela só existe no âmbito das relações entre as
pessoas. A ONU passou a se preocupar com a destruição do planeta, para
ancorar as discussões sobre meio ambiente, e aqui foi dada a largada ao
início de uma escala de produção do saber sobre tecnologia ambiental,
poluições, riscos à saúde humana e um conjunto de técnicas para a melhoria
das condições de vida das populações economicamente ativas.
O CONSUMISMO
passou a ser o alvo dos documentos elaborados pela ONU e apontado como uma
das raízes da crise ambiental. Agora o que prevalece são as práticas de
produção e consumo sustentáveis (PORTILHO, 2010).
O dispositivo meio ambiente
passou a ser o alvo de uma nova prática de governar a população. Agora o que
interessa é garantir o bom funcionamento entre homem e natureza, pois sem o
controle do meio a economia poderá entrar em colapso e isso poderá colocar em
risco todo o sistema capitalista atual. Não podemos esquecer que Foucault, em
1970, já apontava que "as práticas discursivas não são pura e simplesmente
modos de fabricação de
discursos. Ganham corpo em conjuntos técnicos, em
instituições, em esquemas de comportamento, em tipos de transmissão e
difusão, em formas pedagógicas, que ao mesmo tempo as impõem e as
mantêm".
A noção de ecopolítica proposta pelo professor Edson Passeti
procura responder a algumas dessas novas institucionalizações. Segundo
Passeti, "não se trata de disciplina acadêmica ou componente da gestão do
governo sobre a população ou o meio ambiente, mas de prática de governo do
planeta nos tempos de transformação (de si, dos outros, da política, das
relações de poder e do planeta no universo), com desdobramentos
transterritoriais e variadas estratificações conectadas".
Essa noção de
governamentalidade aqui proposta não esgota as discussões pelo tema, e nessa
reflexão não tenho a intenção de demonizar a sustentabilidade ou tipificar a
sua importância sob a égide da economia, ou da produção de indicadores para
aferir o grau de importância, eficiência ou inabilidade de lidar com as
consequências ambientais extremas causadas, por exemplo, pelas mudanças
climáticas. Se assim o fosse, chegaríamos a pensar
que o projeto de
humanidade fracassou, que não teríamos saída e com isso perderíamos a
esperança por uma condição de vida melhor. O fato é que a noção de
sustentabilidade passou a incorporar práticas empresariais, econômicas e
cotidianas no modus operandi da sociedade de consumo. Não podemos esquecer
que na economia capitalista é preciso melhorar sempre, mas a história produz
o inesperado diante do insuportável e diante do insuportável inventam-se
atmosferas outras.
Tomara que as outras atmosferas sigam o caminho da
esperança, como foi proposto por Edgar Morin e Stéphane Hessel (2012) em seu
manifesto A Caminho da Esperança, onde apontam o resgate da solidariedade
como um bem viver que pressupõe o desenvolvimento individual no seio das
relações comunitárias pautadas pela ética, cuja fonte é a responsabilidade
das ações e hábitos sociais que vêm causando o estresse no planeta e levando
a sociedade a viver nos limites que ele pode suportar. Para que isso
ocorra, será necessário o desenvolvimento de uma democracia que seja capaz
de religar o indivíduo, espécie e sociedade, ou seja, natureza, cultura
e tecnologia com um único propósito: o bem viver. Ou, como dito por
Adam Smith, pelo simples prazer de testemunharmos.
Autora: Professora VIVIAN AP. BLASO SOUZA SOARES CÉSAR, Doutoranda e
Mestre em Ciências Sociais (PUC-SP), MBA em Gestão Estratégica de Marketing
(UFMG) e Especialista em Sustentabilidade (FDC), Relações Públicas
(CNP). - vivianblaso@uol.com.br